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A presente proposta de pesquisa propõe a consolidação de uma ação integrada e já em andamento pelos grupos de pesquisa, Grupo de Estudo e Pesquisa em Cultura, Informação, Memória e Patrimônio (GECIMP) e o Grupo de Pesquisa Leitura, Organização, Representação, Produção e Uso da Informação. O interesse comum pelo mesmo objeto de estudos reforça a parceria que se estende também para Instituições, afinal a cultura popular engloba um número vasto de produções literárias, algumas vezes de autoria desconhecida e datando de épocas antigas da nossa língua, o que permite considerar sua tradicionalidade.

A distinção do que é popular, nem sempre é apresentada com clareza ao público que passa a restringir seu significado apenas à cantoria ou ao cordel. No entanto, trata-se de uma literatura, de gêneros e formas diversos, feitos pelo povo e para o povo, na linguagem que ele conhece, do jeito que ele sabe dizer, espontânea e simples, porém significativa porque traduz seus valores e ideologia. Se quisermos conhecer uma comunidade, comecemos a estudar suas manifestações populares e aí estaremos penetrando em sua alma.

Nesse sentido a proposta em questão situa-se no âmbito das pesquisas que envolvem informação, memória e cultura popular especificamente em função do interesse da Linha de Pesquisa Memória, organização, acesso e uso da informação do Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba, como subsídios à consolidação científica da área da Ciência da Informação em nível nacional e internacional.

Isto posto cumpre-nos perceber a memória na interseção sujeito/cultura, o que amplia a compreensão da memória enquanto propriedade estática de conservar informações, dando-lhes certo dinamismo, exigência própria para a ação de reconstrução das experiências passadas, já que é esta uma forma encontrada pela sociedade para pensar a si própria, por meio da sua relação no presente com o passado. Nessa perspectiva pode-se dizer que a memória em sua função social formata-se e se sustenta em uma origem comunicativa, ou seja, ela decifra o que somos hoje, o que já não somos mais. Daí a importância de preservar elementos patrimoniais enquanto lugar de memória (NORA, 1993).

De modo que preservação patrimonial tornou-se foco de discussões no âmbito da sociedade contemporânea e de organismos internacionais a exemplo da UNESCO que em 1992 criou o Programa “Memória do Mundo” com o objetivo de propor ações de criação, manutenção, preservação e disseminação de acervos. No Brasil o Comitê Nacional do Brasil tendo sido instalado em 2004 e regulamentado pela Portaria n. 61, de 31 de outubro de 2007.

Preservar o patrimônio é, portanto, missão inerente à área da documentação. Em face dessa prerrogativa pode-se dizer que bibliotecários, arquivistas, museólogos, historiadores, arqueólogos entre outros profissionais partilham da ideia de que preservar é preciso. Nesse sentido, observa-se que há uma crescente busca pela preservação patrimonial, sobretudo, quando se atrela o patrimônio às questões memorialísticas.

Por outro lado, a memória, como diz Barros “é a aquisição, o armazenamento e a evocação de informações”. Concepção ampliada por Ricouer (2007) ao debruçar-se sobre a memória, na obra “Memória, história e esquecimento”, em que inicia sua reflexão considerando a memória como algo isolado, e traz à tona a problemática da continuidade e da descontinuidade. Em outro texto Ricouer (1990) vai referenciar a memória como algo que dialeticamente vive um embate permanente entre dois polos: lembrar e esquecer. Estes embora opostos, não se excluem.

De modo que uma das preocupações da sociedade contemporânea é possibilitar a preservação de patrimônios culturais com vista à construção memorialística e identitária. Os estudos que contemplam essas questões estão sendo relevados atualmente. São importantes à construção da nossa história e, juntamente com outras manifestações folclóricas, como danças, folguedos e dramatizações, constituem um patrimônio cultural que precisamos preservar.

Ao referir-se a cultura, ao patrimônio e objeto em relação à memória social estabelece que a cultura seja o elemento que a embasa; patrimônio o conjunto de informações revelador de significados, e o objeto o mediador das relações e ações sociais formando categoria constituinte ou inerente ao patrimônio. Os traços, os vestígios e anotações são documentos recheados de memória social “atualizado por circunstâncias, rememorados na dimensão do coletivo que é construção incompleta” (DOBEDEI, 2005, p. 43).

A esse entendimento associamos ainda a compreensão de Fischer (1997) ao referir-se a cultura enquanto expressão identitária e singular de uma determinada sociedade, em que provoca implicações em hábitos e comportamentos, fenômeno da profunda miscigenação e seu “conseqüente intercâmbio cultural, que dá essa cor local e que implica em práticas e ações que dizem respeito a todos”. (FISCHER, 1997, p. 259).

De modo que esta pesquisa assenta-se na perspectiva de não permitir cair no esquecimento à vida e obra dos poetas populares brasileiros coadunando-se com alguns esforços já existentes no Brasil, sobretudo no que concerne a recuperação e disponibilização de informações sobre poetas populares brasileiros e suas obras, a exemplo do esforço envidado pela Unicamp, Conselho Nacional de Folclore e Cultura Popular e a Fundação Casa de Rui Barbosa, ambas no Rio de Janeiro, e em nível de Nordeste tem-se a Fundação Joaquim Nabuco-PE, que trata de um banco de dados de cordel, com registro apenas de 41 folhetos já digitalizados. E em nível de Paraíba acrescente-se os esforços dos pesquisadores paraibanos Átila Augusto de Almeida e José F. Alves Sobrinho que resultou em 1978, na publicação Dicionário Bio-bibliográfico de repentistas e poetas de bancadas, editado pela Editora da Universidade Federal da Paraíba. O acervo de cordel do Centro de Documentação do Programa de Pesquisa em Literatura Popular (PPLP), vinculado ao Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Universidade Federal da Paraíba e ao Programa de Pós-Graduação em Letras em que reúne, preserva e difunde trabalhos de pesquisadores em Literatura popular em seus mais variados estilos e formas, cujo acervo contempla 8.000 (oito mil) títulos de folhetos de Cordel.

Agregue-se a esses esforços o papel da Biblioteca Átila de Almeida, vinculada a Universidade Estadual da Paraíba em sua sede na cidade de Campina Grande, PB, que congrega entre outras produções 10.021 (dez mil e vinte e um) títulos de cordel e 15.967 (quinze mil, novecentos e sessenta e sete) exemplares.

Apesar desses esforços observa-se uma lacuna no que concerne ao registro memorialístico sobre o poeta popular e suas obras. Isto posto cumpre-nos dar visibilidade ao poeta popular e sua obra e nesse contexto, prever as formas possíveis de pesquisa e recuperação da informação e, neste sentido vê-se as novas Tecnologias de Informação e Comunicação como aliadas na ampliação desse potencial favorecendo desse modo a disseminação de conteúdos sobre vida e obra dos poetas populares brasileiros, alguns dos quais estão totalmente imersos na poeira do esquecimento.

Em face desse entendimento a presente pesquisa fundamenta-se num levantamento preliminar em que já se identificou, aproximadamente, trezentos nomes de poetas populares, Apêndice A, cujas obras precisam ser preservadas, considerando que preservação e disseminação de conteúdos informacionais sobre vida e obra de poetas populares brasileiros auxiliam na transmissão da cultura, de geração a geração e na apropriação do sujeito dos aspectos do patrimônio cultural. Pela apropriação, o sujeito é capaz de reconhecer-se, transformar-se, assim, exercer seu direito de construir, no tempo presente sua identidade.

É neste aspecto que se fala da importância do Patrimônio Cultural para a formação e exercício da cidadania. O acesso a ele, ao mesmo tempo, constitui-se acesso à fonte de informação sobre os fazeres e saberes sociais e culturais.

20 comentários sobre “Início

  1. Parabéns professora Bete, o seu trabalho é de suma importância, pois é na realidade um estimulo, para continuarmos nossos trabalhos em defesa da cultura popular. abraço!

    1. Meus amigos, obrigado pelo amparo a nossa literatura de cordel.
      Prezados Senhores, defensores da arte literária e dos saberes e fazeres culturais do nosso povo.

      Até a presente data, escrevi apenas 35 livretos de cordéis com títulos variados, mas sem deixar de citar nas minhas obras, nomes como Virgulino, Padim Ciço, Luiz Gonzaga, Obras sobre os rios do Nordeste e por ai afora.
      Gostaria, de ter os meus trabalhos(MESMO QUE POUCOS) catalogados pela (PPLP). Como faço para ter as minhas obras inseridas neste catalogo nacional?

      Um forte abraço a todos e viva a poesia e a cultura da nossa gente.

      Carlos Silva – poeta e cantador.
      Itamira- Aporá-Bahia.

  2. Beth, você está de parabéns por desenvolver um trabalho dessa magnitude que tanto enriquece a cultura nordestina. Vai em frente que o Brasil te recebe de braços abertos. Bjs.

  3. Caríssima! muito obrigada pela sua dedicação à Literatura de cordel. O seu trabalho e de todos que lhe acompanham nos enobrece. Tenho outros temas que certamente enriquecerão o acervo. Um grande abraço!

  4. um belíssimo trabalho, para a memória da cultura brasileira e para todos os brasileiros, inclusive os mais novos que moram em outros Estado fora da região nordeste, pois no meu caso, moro em Roraima norte do Brasil e existe uma boa aceitação da literatura de cordel, inclusive, alguns professore das escolas e universidade Estadual que são do nordeste, e que incentiva a leitura e até fazer versos com a cultura local, tipo, o encontro de Mário de Andrade com o Macunaíma, e outros de um professor, Rodrigo, de Jaboatão dos Guararapes, da universidade Estadual Roraima.

  5. Parabéns, professora Beth. A Universidade Federal da Paraíba, que vc cita no seu projeto, sempre incentivou a cultura popular, o cordel. Diferente de outras tantas por ai. e por aqui (Fortaleza). O meu primeiro prêmio foi pela UFPB em 1983, quando estava escrevendo meu livro sobre São Francisco : “Francisco do Povo, ontem e hoje, publicado pela editora Vozes, em 1986. Um abraço
    Prof. Gerardo (Pardal) – Fortaleza

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